
Quando estudamos Geografia na escola, aprendemos que o planeta é dividido em continentes. Parece uma classificação simples, mas existe uma curiosidade importante: nem todos os países ensinam o mesmo número de continentes.
No Brasil, é comum aprendermos que existem seis continentes: América, África, Europa, Ásia, Oceania e Antártida. Em países como Estados Unidos e Reino Unido, entretanto, os estudantes normalmente aprendem que existem sete, pois América do Norte e América do Sul são consideradas continentes separados.
Isso não significa necessariamente que uma classificação esteja certa e a outra errada. A definição de continente envolve características físicas da superfície terrestre, mas também critérios históricos, culturais e geográficos.
Por isso, estudar os continentes é também uma boa oportunidade para compreender algo fundamental sobre a Geografia: as maneiras de dividir e organizar o espaço dependem dos critérios utilizados.
O que é um continente?
De maneira simples, um continente é uma grande porção de terras emersas da superfície terrestre, normalmente associada também às ilhas próximas.
Entretanto, essa definição possui algumas dificuldades.
Europa e Ásia, por exemplo, não estão separadas por um oceano. Elas formam uma enorme massa terrestre contínua conhecida como Eurásia. Mesmo assim, por razões históricas e culturais, são tradicionalmente estudadas como continentes diferentes.
A National Geographic explica justamente que Europa e Ásia fazem parte de uma mesma grande massa terrestre, mas passaram historicamente a ser tratadas como continentes distintos. (National Geographic Educação)
Isso mostra que a ideia de continente não depende exclusivamente da geologia.
Quais são os continentes ensinados no Brasil?
Na classificação bastante utilizada no ensino brasileiro, existem seis continentes:
América
África
Europa
Ásia
Oceania
Antártida
O próprio mapa de divisões continentais disponibilizado pelo IBGE apresenta América, Europa, Ásia, Oceania, África e Antártida. (Anda IBGE)
Materiais educacionais brasileiros também trabalham com essa regionalização de seis continentes, considerando tanto aspectos geográficos quanto histórico-culturais. (Portal SME Goiânia)
Vamos conhecer cada um deles.
América
A América ocupa grande parte do hemisfério ocidental e se estende das regiões próximas ao Ártico até áreas próximas à Antártida.
Na tradição geográfica ensinada no Brasil, a América é considerada um continente, normalmente dividido em três grandes partes:
América do Norte
América Central
América do Sul
O Brasil, portanto, encontra-se na América do Sul, que seria uma subdivisão do continente americano.
Um material educacional associado à rede pública brasileira, por exemplo, apresenta a América do Sul como um subcontinente pertencente à América. (Escola Digital)
Também podemos regionalizar a América utilizando critérios históricos e culturais. Nesse caso, aparecem expressões como:
América Latina — formada principalmente pelos países americanos nos quais predominam línguas derivadas do latim, especialmente espanhol e português;
América Anglo-Saxônica — expressão tradicionalmente utilizada para Estados Unidos e Canadá, embora esse tipo de classificação exija cuidado por simplificar sociedades bastante diversas.
Perceba que já temos duas maneiras diferentes de dividir o mesmo continente.
Uma divisão é principalmente geográfica:
América do Norte, Central e do Sul.
Outra procura destacar aspectos históricos e culturais:
América Latina e América Anglo-Saxônica.
É justamente isso que chamamos de regionalização.
África
A África é uma enorme massa continental atravessada tanto pela Linha do Equador quanto pelo Meridiano de Greenwich.
O continente apresenta enorme diversidade de povos, idiomas, religiões, paisagens e formas de organização social.
Por isso, falar simplesmente em “cultura africana”, como se todo o continente possuísse uma única cultura, é uma simplificação.
Para estudar melhor esse espaço, também podemos dividi-lo em regiões.
A classificação estatística das Nações Unidas, por exemplo, trabalha com divisões como África Setentrional e África Subsaariana, esta última subdividida em áreas como África Oriental, Central, Meridional e Ocidental. (UNSD)
Dependendo do objetivo do estudo, outras regionalizações podem ser empregadas.
É importante lembrar, portanto:
África é um continente, e não um país.
Dentro dele existem numerosos países, povos e realidades diferentes.
Europa
A Europa é um dos casos que melhor mostram como a divisão continental não é puramente natural.
Fisicamente, não existe um oceano separando completamente Europa e Ásia. As duas fazem parte da mesma massa continental, a Eurásia.
A separação entre Europa e Ásia está fortemente relacionada à história e às formas pelas quais diferentes sociedades passaram a representar e organizar o mundo. Materiais educacionais brasileiros ressaltam exatamente esse componente histórico-cultural da separação. (Portal SME Goiânia)
Dentro da própria Europa também encontramos regionalizações como:
Europa Ocidental;
Europa Oriental;
Europa Setentrional;
Europa Meridional.
As fronteiras entre essas regiões podem variar conforme o critério utilizado.
Uma divisão política produz determinado mapa.
Uma divisão econômica pode produzir outro.
Uma divisão cultural ou histórica pode gerar ainda outra organização.
Ásia
A Ásia é a maior das grandes divisões continentais quando considerada separadamente da Europa.
É também extremamente diversa.
Ali encontramos desde extensas áreas geladas da Sibéria até regiões tropicais do Sudeste Asiático, além de desertos, grandes cadeias de montanhas e algumas das áreas urbanas mais densamente povoadas do planeta.
Para facilitar os estudos, a Ásia costuma ser dividida em regiões.
Entre elas aparecem classificações como:
Ásia Oriental — China, Japão, Coreias, entre outros;
Sudeste Asiático — Indonésia, Vietnã, Tailândia, Filipinas etc.;
Ásia Meridional — Índia, Paquistão, Bangladesh e outros;
Ásia Central;
Ásia Ocidental.
A Divisão de Estatística das Nações Unidas utiliza subdivisões desse tipo para organizar dados internacionais. (UNSD)
Isso não significa, contudo, que toda regionalização utilizada em livros escolares tenha de seguir exatamente a classificação da ONU.
Oceania
Na classificação mais comum no Brasil, a Oceania aparece como um dos seis continentes.
Ela inclui a Austrália, a Nova Zelândia e numerosas ilhas e arquipélagos espalhados pelo oceano Pacífico.
Dentro da Oceania aparecem tradicionalmente regiões como:
Australásia;
Melanésia;
Micronésia;
Polinésia.
Aqui também encontramos uma diferença interessante de nomenclatura.
Em alguns países, especialmente nos modelos de sete continentes, aparece Australia como o continente, enquanto Oceania pode ser utilizada em sentido regional mais amplo.
No Brasil, entretanto, é muito comum encontrar Oceania apresentada diretamente como continente. O próprio material cartográfico educacional do IBGE possui mapas separados de África, Américas, Ásia, Europa e Oceania. (IBGE – Educa)
Antártida
A Antártida ocupa a região do Polo Sul e possui características bastante diferentes dos outros continentes.
Grande parte de sua superfície permanece coberta por gelo, e ela não possui uma população permanente organizada em países como ocorre nos demais continentes.
Existem, porém, estações científicas mantidas por vários países.
Embora sua ocupação humana seja diferente, a Antártida aparece como continente no modelo de seis continentes utilizado pelo IBGE. (Anda IBGE)
É justamente a retirada da Antártida que permite algumas classificações falarem em apenas cinco continentes habitados.
Afinal, existem cinco, seis ou sete continentes?
Aqui está uma das partes mais interessantes do assunto.
Não existe uma única maneira universal de contar os continentes.
Existem diferentes modelos.
Modelo de seis continentes comum no Brasil
Neste modelo temos:
América — África — Europa — Ásia — Oceania — Antártida
A América é considerada um único continente.
É o modelo representado, por exemplo, na cartografia de continentes do IBGE. (Anda IBGE)
Modelo de sete continentes
É muito utilizado em países de língua inglesa.
Nesse caso temos:
América do Norte — América do Sul — África — Europa — Ásia — Austrália/Oceania — Antártida
A National Geographic utiliza explicitamente esse modelo, apresentando sete grandes divisões continentais. (National Geographic Educação)
A principal diferença em relação ao modelo brasileiro está na América:
Brasil: América = um continente.
Modelo de sete continentes: América do Norte + América do Sul = dois continentes.
Modelo com Eurásia
Outra possibilidade considera Europa e Ásia como uma única unidade:
Eurásia.
Nesse caso, podemos ter seis continentes mantendo América do Norte e América do Sul separadas.
A existência desses diferentes modelos está relacionada justamente ao fato de não existir um critério completamente objetivo e universal para determinar o que obrigatoriamente deve constituir um continente. (WorldAtlas)
Mas por que América é uma só para nós e duas para os norte-americanos?
A resposta está principalmente na tradição geográfica e educacional.
No Brasil e em vários outros países de tradição latino-americana e europeia, consolidou-se a interpretação da América como um continente, posteriormente dividido em América do Norte, América Central e América do Sul.
Já na tradição escolar predominante em países de língua inglesa, América do Norte e América do Sul são classificadas como continentes diferentes.
Assim, um estudante brasileiro pode responder:
Existem seis continentes.
Enquanto um estudante norte-americano pode responder:
Existem sete continentes.
E ambos podem estar respondendo corretamente de acordo com o sistema de classificação que aprenderam.
O mais importante, especialmente em uma questão escolar, é saber qual critério está sendo utilizado.
Então o Brasil está em qual continente?
Na classificação adotada tradicionalmente no Brasil:
Continente: América
Subcontinente: América do Sul
País: Brasil
Portanto, dizer que:
O Brasil está na América do Sul.
está correto.
Mas, dentro do modelo brasileiro, América do Sul é uma subdivisão do continente americano.
Já em um livro produzido segundo o modelo de sete continentes, “South America” será apresentada como um continente propriamente dito.
Essa diferença é importante principalmente quando consultamos mapas, livros e sites estrangeiros.
O que significa regionalizar o mundo?
Regionalizar significa dividir determinado espaço em partes utilizando algum critério.
Imagine que desejamos estudar todos os países do planeta. Seria muito difícil analisar cada território individualmente o tempo todo.
Podemos então agrupá-los segundo características comuns.
Mas existem muitas maneiras de fazer isso.
Podemos regionalizar segundo:
localização geográfica;
aspectos naturais;
história;
cultura;
economia;
população;
relações políticas;
indicadores sociais.
Por isso, uma região não é simplesmente algo que “existe naturalmente” esperando para ser descoberta.
Em muitos casos, ela é uma forma de organizar o espaço para determinada finalidade de estudo.
A própria Divisão de Estatística das Nações Unidas explica que seus agrupamentos geográficos são utilizados para fins estatísticos e não significam um posicionamento político sobre países ou territórios. (UNSD)
Esse cuidado é fundamental na Geografia.
Continente e região são a mesma coisa?
Não exatamente.
Um continente é uma grande divisão da superfície terrestre.
Uma região é um recorte espacial estabelecido segundo determinados critérios.
Por exemplo:
América é um continente no modelo brasileiro.
Dentro dela podemos criar diferentes regiões:
América do Sul;
América Central;
América Latina;
Caribe.
Essas regiões não precisam necessariamente seguir os mesmos critérios.
“América do Sul” possui forte componente de localização física.
“América Latina” envolve principalmente aspectos históricos e culturais.
Isso mostra como a Geografia vai muito além de decorar nomes em um mapa.
O que a Geografia procura estudar quando fala dos continentes?
No ensino mais básico, é natural começarmos aprendendo:
nomes dos continentes;
localização;
oceanos;
países;
capitais;
principais características.
Mas o estudo geográfico não termina aí.
Quando a Geografia analisa um continente, procura compreender também como as sociedades ocupam, transformam e organizam aquele espaço.
Por isso, aparecem questões como:
Como a população está distribuída?
Por que determinadas cidades cresceram em certos locais?
Como o clima interfere nas atividades econômicas?
Como as fronteiras foram formadas?
Como ocorreram as migrações?
Quais recursos naturais existem?
Como esses recursos são explorados?
Quais desigualdades existem entre diferentes regiões?
Como os países se relacionam?
Como guerras e colonizações modificaram os territórios?
Como as culturas se desenvolveram e se relacionaram?
Quais são os impactos ambientais das atividades humanas?
Portanto, estudar um continente não significa apenas saber onde ele fica.
Significa compreender as relações existentes entre território, população, natureza, economia, política, história e cultura.
O que é ensinado sobre os continentes no Brasil
No ensino brasileiro, a divisão continental aparece como uma ferramenta para compreender progressivamente diferentes escalas geográficas.
Materiais educacionais alinhados ao ensino de Geografia trabalham, por exemplo, com o Brasil e suas regiões, com América e África e, posteriormente, com outros espaços mundiais.
Análises relacionadas à Base Nacional Comum Curricular mostram, por exemplo, a presença de América e África no estudo do 8º ano, envolvendo conceitos como território, identidade regional, migração, paisagem, população e formação socioespacial. (Base Nacional Comum)
Isso revela uma mudança importante em relação à ideia de simplesmente decorar:
país — capital — continente.
O objetivo é compreender processos geográficos.
Por exemplo, ao estudar a África, não basta localizar países no mapa.
É possível estudar:
colonização;
fronteiras;
migrações;
urbanização;
diversidade cultural;
recursos naturais;
conflitos territoriais;
relações econômicas.
O mesmo ocorre com América, Europa, Ásia e Oceania.
Por que as divisões do mundo podem mudar?
Porque uma regionalização depende da pergunta que estamos tentando responder.
Suponha que queremos estudar terremotos.
Provavelmente será mais útil observar:
placas tectônicas e estruturas geológicas.
Agora imagine que queremos estudar comércio internacional.
Talvez seja melhor analisar:
blocos econômicos e regiões econômicas.
Para estudar idiomas:
regiões linguísticas.
Para estudar população:
regiões demográficas.
Para estudar história:
regiões formadas por determinados processos históricos.
Uma mesma área pode, portanto, participar de diferentes regionalizações ao mesmo tempo.
O Brasil, por exemplo, pode ser classificado como:
América — continente;
América do Sul — região ou subcontinente;
América Latina — região histórico-cultural;
Hemisfério Sul — posição em relação à Linha do Equador;
Hemisfério Ocidental — posição em relação ao Meridiano de Greenwich.
Nenhuma dessas classificações anula necessariamente as demais.
Cada uma responde a uma pergunta diferente.
Europa e Ásia: talvez o melhor exemplo
Observe novamente Europa e Ásia.
Se utilizarmos apenas a continuidade das terras, podemos perguntar:
Por que são dois continentes?
Não existe um oceano entre os dois.
Por isso existe o conceito de Eurásia.
Mas a tradição histórica construiu Europa e Ásia como espaços distintos.
Materiais brasileiros de ensino de Geografia destacam que essa separação considera aspectos históricos e culturais, apesar da continuidade territorial entre as duas áreas. (Portal SME Goiânia)
Esse exemplo ajuda a entender uma ideia central:
continentes são divisões geográficas, mas sua delimitação também pode carregar elementos históricos e culturais.
E as placas tectônicas? Não são os continentes?
Esse é outro ponto que pode provocar confusão.
Continente e placa tectônica não são sinônimos.
As placas tectônicas são grandes blocos da litosfera terrestre que se movimentam lentamente.
Um continente pode estar relacionado a mais de uma placa, e uma mesma placa pode possuir áreas continentais e oceânicas.
Portanto, não devemos imaginar que existe obrigatoriamente:
um continente = uma placa tectônica.
A divisão dos continentes utilizada nos mapas escolares não corresponde perfeitamente à divisão geológica das placas.
Afinal, quantos continentes existem no mundo
A resposta depende do modelo adotado.
No sistema bastante utilizado no Brasil, temos seis continentes:
| Continente | Algumas divisões ou regiões |
|---|---|
| América | América do Norte, Central e do Sul |
| África | Norte da África, África Subsaariana e outras subdivisões |
| Europa | Norte, Sul, Leste e Oeste |
| Ásia | Oriental, Meridional, Central, Ocidental e Sudeste Asiático |
| Oceania | Australásia, Melanésia, Micronésia e Polinésia |
| Antártida | região polar austral |
Já no modelo comum em diversos países de língua inglesa, América do Norte e América do Sul são dois continentes, fazendo o total chegar a sete. (National Geographic Educação)
Mais importante do que decorar um número é entender por que essas divisões existem.
É justamente aí que aparece uma das características mais interessantes da Geografia: um mapa não serve apenas para mostrar onde estão as coisas. Ele também representa uma determinada forma de organizar, interpretar e compreender o espaço.
Referências
IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Divisões dos continentes. Atlas Geográfico Escolar. Mapa com América, África, Europa, Ásia, Oceania e Antártida. (Anda IBGE)
IBGE Educa. Mapas do mundo. Material educacional com mapas dos continentes e das Américas. (IBGE – Educa)
NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY. Continent. Material de referência sobre o conceito de continente e a classificação em sete continentes. (National Geographic Educação)
UNITED NATIONS STATISTICS DIVISION. Standard Country or Area Codes for Statistical Use — M49. Sistema de regiões e sub-regiões geográficas utilizado para fins estatísticos pelas Nações Unidas. (UNSD)
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE GOIÂNIA. Continentes, oceanos e mares. Material didático de Geografia sobre a divisão do planeta em seis continentes e os critérios histórico-culturais envolvidos nessa regionalização. (Portal SME Goiânia)
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE GOIÂNIA. Regionalização mundial. Conteúdo educacional sobre continentes, regiões e diferentes critérios utilizados para dividir o espaço mundial. (Portal SME Goiânia)
BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR — MEC. Documentos analíticos da área de Geografia, com discussões sobre América, África, regiões, território, paisagem, identidade regional e organização dos conteúdos escolares. (Base Nacional Comum)
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